Prefácio de Nádia Batella Gotlib

Nadia

Uma costura narrativa para o de dentro

Tal como Clarice Lispector, quando afirma que “há gente que cose para fora, eu coso para dentro”, a personagem desse romance em primeira pessoa faz também uma costura narrativa voltada para o seu de dentro, e sempre movida pelo de fora, o que gera um instigante e sensível movimento de múltiplas e diversificadas “interpretações” da sua intimidade.

Digo “interpretações” porque, segundo a narradora, tudo são interpretações. Não há “linguagem pura”. E seu percurso, uma espécie de romance in progress, traduz os passos da consciência dessa construção novelesca, que, ao situar a autora num exercício contínuo de “ser-se”, nos lega, a nós, leitores, tanto os meandros que habitam os mais profundos porões da experiência, quanto leves e quase bem humoradas brisas de esperança renovadora.

Eis um movimento que tem a capacidade de prender a atenção do leitor. A narrativa, se movida pela truculência, sulca marcas violentas, a sangue frio, implacáveis; e, se movidas pelo halo de um amor redivivo, se enovela em círculos, até acertar o alvo, em confissões que, no entanto, lhe trazem por vezes a desilusão e o gesto solitário.Para só mais tarde… completado o difícil ciclo do amadurecimento… desembocar num final… que não conto, para não tirar a surpresa do leitor.

Importante considerar as nuances do percurso: as anotações na caderneta acumulam fatos da rotina, ordinários e extraordinários, num conjunto próximo ao que poderia ser um diário de vida, ainda que sem a tradicional marcação dia a dia, mas não diário de simplesmente uma vida, mas de um contínuo aprofundar-se em si, na busca de algo que sempre se lhe escapa.

Há companheiros de jornada: analistas, homens amados, parentes distantes… E há outros companheiros, quem sabe até mais próximos: os escritores que lê – Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Lobo Antunes, Adélia Prado, Herman Hesse, além de outras figuras do seu tempo, que, ao habitarem o universo da sua década, puxam o leitor para a sua própria contemporaneidade.

E há, também, relatos de viagens. O leitor, ancorado num Rio de Janeiro de tragédias pessoais – hospital, doença, dores, abandono, desespero–e levado a um passado das Minas Gerais, é convidado a passear em Lisboa, cidade que, de certa forma, metaforiza as transformações: das ruínas do terremoto dos setecentos à corajosa e perseverante reconstrução, pedra por pedra.

O esforço por uma reconstrução é um dos pilares que alinhavam a história desse romance. Tal como, pela mão de Clarice Lispector, percorre porões da condição humana – o melhor e o pior de si – num exercício de ensaiar este perigoso e difícil “ser-se”, movendo-se pelos vários eus que se lhe surgem à frente, já pela mão de Fernando Pessoa, também múltiplo, revisita lugares que lhe eram caros, como o restaurante Martinho da Arcada, sempre ela também, a personagem narradora, com a caderneta e a lapiseira em punho. Não teria sido por acaso que nesse mesmo restaurante haveria de esquecer sua caderneta… e assim… Também não vou contar as consequências de tal esquecimento.

Alimentando com suspenses marotos o andamento da história, a narradora estabelece um vínculo intenso e honesto com a palavra, desvendando seus sabores, suas texturas, seus perigos. Criando imagens originais, que surpreendem. E enfrentando o que elas lhe preparam.

Talvez uma das qualidades mais patentes dessa história seja mesmo essa coragem de se disponibilizar para o que há de vir, tarefa mais árdua do que pode parecer à primeira vista. Nada fácil sujeitar-se às mudanças, atravessando zonas de turbulência, na iminência da queda. E sob ameaça de variados matizes de humor e de entrega. E de bem arquitetadas críticas aos padrões, a ‘cópias de ser’, que vão sendo descartados do repertório de valores.

Monólogo? Sim, pois a narradora não abdica da palavra, da sua palavra, delegando-a apenas em raríssimos momentos, a outros que falam, em brevíssimos diálogos.

No entanto, há sim, ali nesse de dentro da narrativa, um diálogo, aliás, constante, entre os eus da narradora, elevados por vezes à condição de personagens, ou faces de personagem, com ações e posturas específicas. E há também um dirigir-se a outro que pode ser o seu próprio leitor, embora esteja ele, nesse caso, colocado na condição de competir sua ação de presença com outros que aí se interpõem, temporariamente, ao longo do romance.

Ao fim e ao cabo, o leitor conhece, nesse romance, uma personagem forte, mulher bem desenhada, sem concessões. Que se desvenda em aberto, num jogo cerrado, limpo, contundente, de teor autobiográfico. Mas trata-se, convém não se esquecer, de um jogo ficcional.

Resta, pois, ao leitor, acompanhar essa aventura, deixando-se levar pela sedução dessa linguagem que se propõe ciente de si, e que consegue mobilizar diferentes sensações, personagens, territórios, na procura obstinada de algo que justifique a própria condição de aí inscrever-se.

É o que o leitor há de experimentar nessa oportuna e contundente estreia literária.

Nádia Battella Gotlib é professora e pesquisadora de literaturas de língua portuguesa da USP, e biógrafa de Clarice Lispector.

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