Um dos maiores especialistas em literatura na língua portuguesa, Arnaldo Saraiva comenta O Ser-se

Saraiva

O Ser-se teve a honra de ser lido pelo português Arnaldo Saraiva, Professor catedrático da Universidade de Literatura do Porto e fundador do Centro de Estudos Pessoanos:

“Tenho a dizer que me agradou muito a leitura do seu romance. Desde logo porque está escrito num excelente português: frases breves, linguagem concreta, coloquialidade, fluência, que o fragmentário não contraria. Depois, você constrói bem a imagem de uma ‘femme à 40 (ou 41) ans’, que não se parece com a trintona de Balzac, embora também sinta o corpo e o sexo, porque está demasiado atormentada por dores físicas e psíquicas que a levam ao hospital e ao divã e ameaçam destruí-la, pela crise ou crises que lhe impõem várias rupturas e a expõem às ameaças do vazio ou da solidão. Salva-se pela vontade de ‘nascer de novo’ ou de se salvar (‘preciso’, ‘quero’…), mas sobretudo pela vontade de escrever, já que a escrita é espelho e olhar, memória e clarificação, e se por vezes vai atrás da vida ou do pensamento também pode outras vezes ir à frente. Seria interessante analisar todos os elementos da ‘teoria da escrita’ contida em O Ser-se – como aliás também seria interessante analisar a sua ‘teoria da vida’, sobretudo feminina, que, como é natural, implica  pontos de vista sobre os homens. (…)

O seu texto chega a lembrar o texto de outro escritor que também explicitamente homenageia, o Pessoa/Bernardo Soares do Livro do Desassossego, e não só pela escrita na primeira pessoa do singular; embora se trate de uma mulher, ela também é ‘escriturária’ numa repartição, também  cumpre a rotina de uma existência banal e absurda, também conhece os acidentes de um ‘ontem’ ou de um ‘hoje’ sem outra história que não seja a da repetição com variações de intensidade  na  dor  dominadora ou na precária alegria. Mas em Lisboa a sua X. tem mais sorte do que o ajudante de guarda-livros pessoano; a cidade reconstruída depois do terremoto parece ajudá-la a reconstruir-se. Só que o seu bilhete também era de ida e volta. E se o seu final parece feliz, ela mesma se apressa a advertir que ‘o futuro é hoje’, só.”

QUEM É

Arnaldo Saraiva é professor emérito da Universidade do Porto. Licenciado pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, lecionou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, na Universidade da Califórnia em Santa Barbara e na Universidade de Paris – Sorbonne Nouvelle e na Universidade Católica Portuguesa (Porto). Fundador do Centro de Estudos Pessoanos, presidente da Fundação Eugénio de Andrade e colaborador da Rede de Televisão Portuguesa. Autor de mais de 100 livros, entre ensaios, poesias, crônicas e tradução. É sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras, Cavaleiro da Ordem do Rio Branco pelo Governo Brasileiro e Sócio Benemérito do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s