O Ser-se

The-Harem-Dancer-Hans-Zatzka

“Acho que bati a cabeça no céu novamente. Mas agora foi pelo paladar. Por acaso, sempre por acaso, parei num restaurante indiano. Quando já estava sentada à mesa, hipnotizada pelos exóticos aromas e olhos do indiano, quase me proibi a traição. Se estou em Lisboa, devo privilegiar restaurantes alfacinhas, pensei. Mas a gente sempre arranja uma boa desculpa para justificar o que quer fazer: se vim em busca de novas formas de pensar, por que não experimentar encontrá-las pelo paladar? E, afinal, ser português é ser um pouco indiano também. Onde foram os maiores entrepostos de Portugal? Resolvida a questão, pedi duas chamuças, de entrada. Mas foi quando chegou o prato principal que tive a primeira iluminação. Descobri que viajar sozinha tem muitas vantagens. Uma delas é poder comer cebola à vontade. Tanta coisa aconteceu. Tenho tanto para contar que nem tenho tempo. Meu tempo é medido pelos ponteiros da emoção. Entre o instante em que me sentei à mesa e que acabei de comer, o mundo deu muitas voltas. Fui à Calicute, andei de elefante, banhei-me com as vacas no Ganges, caí prostrada aos pés de Shiva, em adoração. Cheguei a Ceuta. Vi Camões e seu olho perfurado. Pimenta. Fui ao Rio e passei a tarde com o homem desconhecido, fazendo amor. Cúrcuma. Uma cigana se aproximou da minha mesa e rogou pragas horríveis em romani porque me recusei a dar-lhe esmola. Açafrão. Caril. Naveguei no porão da caravela. Fui à Pérsia. Dancei cheia de curvas e brilhos para o sultão. A odalisca. Segui a caravana nas corcovas do camelo. Mostarda. Cardamomo. Venci as tormentas do Bojador. Etiópia, Arábia, China, Sumatra. Com Vasco da Gama, fui recebida pelo rei em seu castelo. Páprica. Vi Santo Antônio pregando aos peixes. Comprei ouro em pó, na Guiné. Marfim. Lutei como um selvagem em Constantinopla. Tamarindo. Gengibre. Tramei a morte do califa em Damasco. Fui a Bagdá. Negociei com os beduínos do Magrebe. Comprei sedas e pérolas em Ormuz. Maçábar. Vi a fila dos hereges no auto de fé. Os marranos decapitados. Cominho. Vi a jovem freira e seu amante ardendo em gozo na clausura. Fui um missionário jesuíta. Málaca, Tartária. Meditei com Zaratustra às margens do rio. Estripei o cervo e preparei o mais fino almíscar. Malabar. Desfilei nas ruas de Lisboa com o rei e seu exótico séquito de elefantes, onça e rinoceronte. Vi d. Sebastião surgir triunfante das brumas em seu cavalo branco. Fui à Cochinchina…

Na saída do restaurante, ainda zonza, topei com a Igreja de São Nicolau e entrei, em êxtase. Apanhei o primeiro papelzinho que vi pela frente, no balcão. Nele estava escrito: “Vamos fazer um banquete e alegrar-nos porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado. E a festa iniciou-se” (Lc 15, 23-24). Ainda não sei, mas tenho a impressão de que tudo começa a fazer sentido…” (Trecho do livro O Ser-se, de Júnia Azevedo).

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